Pedro D. Miranda
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Conselho de Dono · 25 de junho de 2026

O sócio que abre mão de um processo está sempre cobrando algo maior

Quando dois fundadores decidem brigar numa arbitragem só, o conflito não diminuiu — ele subiu de instância.


Na sexta-feira, 19 de junho, a Azzas 2154 — a companhia que nasceu da fusão entre Arezzo e Grupo Soma em 2024 — fez um movimento que poucos leram direito.

Alexandre Birman, o CEO, comunicou que estava encerrando uma arbitragem que ele mesmo havia aberto. A que ele protocolou em 14 de maio (CAM-B3 nº 325/26) saiu de cena. Em vez de manter dois processos paralelos contra seu sócio Roberto Jatahy, ele transferiu seus pedidos para a arbitragem que o próprio Jatahy abrira um dia depois, em 15 de maio — convertendo o que era ataque em pedido contraposto dentro do processo do adversário.

No mesmo dia, a companhia divulgou outro fato relevante: contratou o Morgan Stanley para "avaliar alternativas para destravar valor" da Farm Rio — possível venda ou IPO nos Estados Unidos, com pedida especulada na casa de US$ 1 bilhão. A ação subiu mais de 8% na sexta. (InvestNews, 19/06/2026; Seu Dinheiro, mai–jun/2026.)

O mercado viu duas notícias. Eu vejo uma só.

A virada

Desistir de um processo parece recuo. Quase sempre é o contrário.

Quando um sócio abre mão da arbitragem que ele próprio iniciou e migra para a do outro, ele não está cedendo terreno — está concentrando o jogo num tabuleiro só. Dois processos paralelos pulverizam a disputa, criam frentes que se contradizem, atrasam decisão. Um processo único força a sentença a tratar de tudo de uma vez. Quem unifica está dizendo, em linguagem de gabinete: chega de escaramuça, vamos para a partilha.

E é por isso que a Farm Rio aparece exatamente na mesma sexta. Não é coincidência de calendário. A Farm é o ativo mais limpo, mais vendável e mais querido da companhia — receita de R$ 1,3 bilhão nos doze meses até o 1º tri de 2026, marca com tração internacional. Quando o ativo mais bonito da casa vai à vitrine no mesmo dia em que o conflito é unificado, a empresa não está vendendo uma marca. Está precificando um divórcio.

A lente

Existe um momento, em toda sociedade que racha, em que o conflito deixa de ser sobre quem tem razão e passa a ser sobre quanto vale sair. É uma transição silenciosa e quase ninguém percebe quando atravessa a linha.

Na primeira fase, os sócios discutem gestão, autonomia, organograma — foi exatamente o que travou Birman e Jatahy desde a fusão: quem manda em qual divisão, quem responde por qual marca. Brigam por controle. Acham que estão brigando pelo negócio.

Na segunda fase — a que começou na sexta — eles param de brigar pelo controle e começam a brigar pelo preço da separação. E aqui está a distinção fina que quase todo dono erra: o conflito não esfriou porque ficou mais civilizado. Ele esquentou porque ficou mais caro. Unificar a arbitragem e colocar a Farm à venda são o mesmo gesto — é a sociedade montando a mesa de partilha enquanto ainda sorri para a foto do conselho.

O que isso ensina, na prática

O mecanismo. Toda sociedade tem um ponto de não-retorno que não está no contrato — está no comportamento. O sinal não é o grito; é a racionalização. Quando os sócios param de disputar emoção (organograma, ego, território) e passam a disputar matemática (laudo, múltiplo, quem fica com o quê), o casamento acabou. O que resta é o inventário.

A distinção fina. Há diferença abissal entre conflito de operação e conflito de existência. O primeiro pergunta "como tocamos isso juntos?". O segundo pergunta "como nos separamos sem destruir o que construímos?". O erro fatal do dono é tratar o segundo com as ferramentas do primeiro — manda reunião de alinhamento quando já era hora de chamar o avaliador. Birman, ao unificar e contratar banco, mostrou que entendeu em qual conflito estava. Muitos sócios brasileiros levam anos para entender — e queimam a empresa no caminho.

A aplicação. Se você é sócio, faça hoje uma pergunta desconfortável: nossa última briga foi sobre como fazer ou sobre quanto vale? Se as conversas já migraram para valuation, cláusula de saída, "quem fica com qual marca" — pare de gerir e comece a estruturar. A separação bem desenhada preserva valor; a separação empurrada com a barriga destrói os dois lados. O acordo de saída que você devia ter feito quando entrou é o mesmo que vai te salvar agora — só que agora custa caro e dói. A diferença entre uma cisão e uma guerra é uma só: quem desenhou a porta de saída antes de precisar dela.

Eco

"O sócio que desiste de um processo raramente desistiu da briga. Ele só decidiu que vale mais brigar pelo preço do que pela razão."

Birman e Jatahy ainda dividem o conselho. Mas a sexta-feira de 19 de junho contou a verdade que o press release não disse: a Azzas parou de discutir como ser uma empresa só e começou a calcular quanto custa ser duas.

Se você está vivendo essa transição — ou desconfia que ela já começou na sua sociedade — vale conversar antes de o preço subir. A separação que se desenha em silêncio custa uma fração da que se litiga aos gritos.

Pedro D. Miranda
Conselho de Dono


Fontes desta edição: InvestNews, "No Azzas, venda da Farm ganha força e disputa entre Birman e Jatahy entra em nova fase" (19/06/2026); Seu Dinheiro, cobertura da disputa societária Azzas 2154 / AZZA3 (mai–jun/2026); fatos relevantes da Azzas 2154 à CVM sobre as arbitragens CAM-B3 nº 325/26 e 326/26 e a contratação do Morgan Stanley para a Farm Rio. Análise editorial de Pedro D. Miranda.

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